Sociedades científicas do mundo inteiro, entre elas a Academia Brasileira de Ciências (ABC), lançaram ontem um manifesto que recomenda a proibição da clonagem de seres humanos. As entidades pedem, porém, que seja permitida a clonagem terapêutica, usada na pesquisa de tratamentos para doenças como o mal de Parkinson e diversos tipos de câncer. Assinado por 63 sociedades científicas, o documento será encaminhado à ONU, onde, entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro, se reunirá a Comissão sobre Clonagem. A proibição da clonagem humana é consenso, mas os cientistas temem que a clonagem terapêutica seja banida simultaneamente. Embora a a Academia de Ciências dos EUA tenha assinado o documento, o governo de George W. Bush defende a proibição de todo tipo de clonagem.
A clonagem consiste na fusão de um óvulo – cujo núcleo tenha sido previamente retirado – com o núcleo de uma célula de animal adulto. O resultado é a criação de um embrião com genes idênticos aos do doador da célula. Se esse embrião for implantado num útero e se desenvolver, como foi feito com a ovelha Dolly, temos o que se chama clonagem reprodutiva.
Mas se o embrião for usado apenas para pesquisa em laboratório, a técnica é chamada de clonagem terapêutica. O maior objetivo dos cientistas é estudar as células-tronco, que se formam nos estágios embrionários iniciais e são capazes de se diferenciar e se transformar em todo tipo de tecido do corpo. Por essa capacidade, elas são consideradas muito promissoras no tratamento de diversas doenças.
– É importante que as pessoas entendam que ninguém está propondo a criação de um feto para a retirada de células – frisou a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da USP, integrante da Associação Brasileira de Ciências.
Mayana defende ainda a liberação dos embriões descartados e congelados em clínicas de reprodução para o uso em pesquisas sobre células-tronco.
– Milhares de embriões são descartados todos os anos – disse. – Estamos falando de células cujo potencial de vida se inserido no útero é de menos de cinco por cento.
A geneticista frisou, no entanto, a importância da proibição da clonagem reprodutiva. – As experiências com animais nos últimos seis anos mostraram que a clonagem reprodutiva é um risco gigantesco – afirmou. – A eficiência é baixíssima, de menos de um por cento, e todos os que nasceram estão com problemas.
Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: O Mundo Tamanho: 447 palavras
Edição: 1 Página: 28
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